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Maria Helena se desenvolveu até 1 ano: sentou, engatinhou, falou as primeiras palavras e deu os primeiros passos. Tudo normal até que a mãe percebeu comportamentos diferentes. “Ela começou a rejeitar alimentos que comia, as palavrinhas que ela falava foram diminuindo, perdeu o contato visual e adquiriu algumas estereotipias. Estávamos na pandemia, todos isolados há algum tempo, e meu marido pensou que fosse porque ela não estava tendo contato com outras crianças, mas eu tinha certeza de que tinha algo de errado com a minha filha!”, conta Milene Prado.
Após uma pesquisa no Google, Milene identificou na filha os sinais de autismo. “Eu perdi o chão! Tudo o que estava escrito ali, eu estava vivendo com a minha filha. Marcamos uma neuropediatra. Ela ficou conosco por quase 3 horas e no mesmo dia entregou o laudo da Maria Helena com as indicações terapêuticas. Nesse momento começou nossa jornada como pais atípicos”, relata.
O autismo não é uma doença. A pediatra infectologista Mariza Curto, especialista em crianças atípicas, explica que o autismo é uma condição do neurodesenvolvimento em que são percebidas alterações na comunicação, sociabilidade e comportamento, manifestadas de formas diferentes em cada pessoa. O Transtorno do Espectro Autista (TEA) possui níveis de suporte do 1 ao 3, uma escala que indica o nível de suporte que o indivíduo necessita,conforme o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais).
Entre os sinais de alerta estão movimentos repetitivos na infância, irritabilidade extrema em bebês, insônia, atraso da linguagem aos 2 anos de idade e pouca resposta a estímulos.
“Os fatores se somam. Uma única alteração não fecha diagnóstico, mas talvez o comportamento seja o mais importante pois acaba atrapalhando as atividades da vida diária e o aprendizado. Não existe exame de imagem, por exemplo, e nem teste genético em escala comercial. O diagnóstico é clínico através de escalas neurológicas”, esclarece a pediatra.
Mas nem sempre o diagnóstico vem na primeira infância. Clara, 11 anos, nível de suporte 1, desconfiava que era diferente, mas não sabia em que sentido, até que há 5 meses a família recebeu o resultado de uma avaliação realizada por uma neuropsicóloga. “De uns dois anos pra cá eu percebi o afastamento físico e que a Clara parou de fazer contato visual. Somos uma família muito carinhosa e ela não queria mais fazer isso. Depois comecei a observar outros sinais. Veio a hipersensibilidade auditiva, quando Clara contou para o pai que ouvia o barulho da eletricidade na tomada. E, por último, ela começou a separar a comida no prato”, conta a mãe Mell Mercado.
Mell ressalta a importância do diagnóstico para a família toda. “Quanto mais cedo, melhor pra gente se adaptar. Os autistas costumam ser muito organizados e apegados à rotina. Nós passamos a respeitar os horários da Clara, a forma dela de ser. Passamos a agendar os programas com 48h de antecedência pra ela se organizar mentalmente, e não forçar a ir em lugares muito cheios que ela não quer. Agora eu entendo que o alface não pode encostar no arroz e que tudo é muito ao pé da letra. Precisamos aprender a respeitar tudo isso no autista. Quando a gente descobre o diagnóstico cedo, a criança ou adolescente consegue fazer terapia – no caso da Clara é a ocupacional, para conseguir lidar com as questões da vida”, relata.
Terapia ocupacional
A terapia ocupacional tem um papel central no desenvolvimento das crianças com Transtorno do Espectro Autista. A criança aprende a desenvolver autonomia nas atividades diárias, lidar com som, texturas, estímulos, além da parte motora. Tudo isso favorece a adaptação da criança no ambiente familiar e na escola. A psicóloga e psicoterapeuta Cristiane Vaz de Moraes Pertusi, presidente da Associação Brasileira de Terapia Familiar (ABRATEF), explica que as crianças autistas costumam apresentar uma hiper ou uma hipossensibilidade sensorial, e é isso que torna a vida tão estressante, para as famílias e para as próprias crianças.
“Elas precisam desenvolver algumas habilidades para responder, interpretar o ambiente e os estímulos de uma forma melhor, com menos sofrimento. A terapia ocupacional vai melhorar a qualidade de vida dessa criança, para que ela fique mais à vontade com o mundo, se sinta mais segura, mais constante, e sinta que tem mais previsibilidade”, esclarece a psicóloga.
Pertusi ressalta que um diagnóstico precoce facilita o alívio dos sintomas, direciona as intervenções terapêuticas e permite que a família e a escola desenvolvam habilidades para melhor atender às necessidades da criança. “Quando a família, a escola ou profissionais de saúde detectam esses sinais precocemente, a intervenção pode ser iniciada, promovendo um desenvolvimento mais adequado e minimizando possíveis atrasos, especialmente no que diz respeito à linguagem. A linguagem é fundamental para o estabelecimento de vínculos, interações sociais e o desenvolvimento da autonomia”, explica.
Autismo no Brasil: 2,4 milhões de diagnósticos
O Censo Demográfico 2022, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2025, identificou 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de TEA, o que corresponde a 1,2% da população brasileira. Para as famílias que estão investigando ou receberam o diagnóstico, a pediatra Mariza Curto orienta manter a calma. “Cada criança é única e, com tratamento adequado, vai ganhando aptidões. Nunca compare uma criança autista com outra, pois trata-se de um espectro de sinais”, afirma.
Hoje Maria Helena, nível de suporte 3, está com 7 anos, faz psicoterapia, fonoaudiologia, psicopedagogia, terapia ocupacional e ginástica olímpica. Milene se preocupa com o futuro da filha, que exige apoio substancial. “O autismo pode bater em sua porta a qualquer momento. Precisamos ter empatia e conscientizarmos os nossos sobre o que de fato é o autismo. Buscar informação e acolhimento para as famílias. Eu sou mãe atípica de uma menina e tenho muito medo do futuro. Pois o maior medo de uma mãe e de um pai é deixar seu filho desamparado. Ainda mais uma pessoa do sexo feminino e que precisará de suporte para o resto da vida. Peço a Deus todos os dias que tenha misericórdia da minha filha”, desabafa.
Especial Abril Azul: Olhares sobre o autismo
O Abril Azul foi estabelecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) com o objetivo de conscientizar a população sobre o autismo e construir uma sociedade mais consciente, menos preconceituosa e mais inclusiva, a partir do Dia Mundial da Conscientização sobre o Autismo, celebrado em 2 de abril.
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1 thought on “Autismo: Os sinais que vêm antes do diagnóstico”