Nas últimas décadas, o número de diagnósticos de autismo cresceu significativamente. No Brasil, o Censo Demográfico 2022, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2025, identificou 2,4 milhões de pessoas autistas, o que corresponde a 1,2% da população brasileira. Nos Estados Unidos, dados do Centers for Disease Control and Prevention indicam uma prevalência de 1 em cada 31 crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Será que há mais casos de autismo hoje ou estamos diagnosticando melhor?
Para a médica geneticista Patrícia Correia, a principal hipótese é de que seja realmente por uma mudança nos critérios e maior conscientização sobre o autismo, permitindo que casos mais leves, que antes ficariam sem diagnóstico, sejam identificados. Ela também alerta para a possibilidade de mais diagnósticos considerando como autistas pessoas com variações dentro da normalidade da personalidade.
“A maioria dos casos de autismo é de etiologia multifatorial, onde fatores genéticos se associam a fatores ambientais na gênese da condição. Então é esperado que algumas pessoas tenham ‘traços’ de autismo, principalmente dentre os familiares de pessoas autistas, que compartilham características genéticas com elas. Mas só se pode falar em autismo quando há um prejuízo significativo para a vida da pessoa”, afirma a geneticista.
A possível relação entre o aumento acelerado de diagnósticos e causas ambientais é uma das questões mais sensíveis do debate contemporâneo, segundo a médica psiquiatra Thaíssa Pandolfi, especialista em neurodivergência e superdotação feminina.
“Existem dois extremos: de um lado, narrativas que reduzem o autismo à genética pura, descontextualizada da vida; de outro, discursos que atribuem a condição a vilões da modernidade, vacinas, glúten, ultraprocessados, telas, sem sustentação científica. Como pesquisadora, prefiro ocupar o terreno do meio: o autismo tem base genética e hereditária dominante, com modulação ambiental real no período pré-natal e perinatal, onde a poluição, certos medicamentos, infecções maternas, idade parental avançada e exposições agrícolas específicas têm evidência consistente”, afirma a psiquiatra.
Pandolfi ressalta que o estilo de vida moderno, no sentido amplo, não causa autismo, mas afeta de modo decisivo a saúde integral, a regulação neurobiológica e a qualidade de vida de pessoas autistas, o que torna a discussão sobre alimentação, movimento, sono, contato com a natureza e ambiente livre de tóxicos absolutamente pertinente, desde que tratada como questão de saúde pública.
Autismo e Herdabilidade
Segundo a psiquiatra Thaíssa Pandolfi, estudos indicam que os índices de herdabilidade podem variar entre aproximadamente 70% e 90%. “Isso não significa que exista um único gene responsável. O autismo é uma condição poligênica e multifatorial, que envolve a interação de diversas variantes genéticas ligadas ao desenvolvimento neurológico. Por isso não é incomum encontrarmos características semelhantes em diferentes membros da mesma família”, esclarece.
Pandolfi aponta um conceito descrito na literatura científica que ajuda a explicar por que essas características tendem a se concentrar em determinados núcleos familiares. Trata-se do chamado assortative mating, que descreve a tendência de pessoas com perfis cognitivos ou comportamentais semelhantes formarem vínculos afetivos. Na prática clínica, a psiquiatra observa com frequência casais em que um ou ambos apresentam traços de neurodivergência, como autismo, TDAH, altas habilidades ou alta sensibilidade.
“Quando esses perfis se encontram, aumenta a probabilidade de que filhos também apresentem formas semelhantes de funcionamento neurológico. Muitas vezes o diagnóstico de uma criança acaba abrindo uma porta de compreensão para toda a família”, conta a psiquiatra.
A geneticista Patrícia Correia destaca que o autismo é um conjunto de sintomas com inúmeras causas. “Existem vários ‘autismos’ diferentes, com prevalência, razão sexual e sintomas variados. A maioria é multifatorial, mas existem várias condições genéticas causadas por mutações em um único gene que cursam com autismo. Algumas anomalias nos cromossomos também estão associadas, inclusive a Síndrome de Down. Quando há uma causa única identificável, o diagnóstico principal é o da condição que levou ao autismo, sendo ele mais um sintoma do que um diagnóstico específico”, conclui a geneticista.
Há mais meninos autistas ou meninas foram subdiagnosticadas?
De acordo com o Censo 2022, a prevalência de TEA é maior entre os homens em todos os grupos etários até 44 anos. A psiquiatra Thaíssa Pandolfi acredita no subdiagnóstico em meninas e diz que, durante décadas, o entendimento clínico do autismo foi construído a partir de estudos realizados majoritariamente com meninos, influenciando critérios diagnósticos.
“Durante muito tempo, o autismo foi compreendido quase exclusivamente a partir de estudos realizados com meninos. Isso fez com que muitas mulheres atravessassem a infância, a adolescência e até a vida adulta sem entender por que se sentiam tão diferentes das outras pessoas. Elas aprendiam desde cedo a observar, adaptar comportamentos, imitar expressões sociais e construir estratégias de sobrevivência em ambientes que nem sempre compreendiam”, afirma.
Foi o que aconteceu com Nayara Cristina Silva, diagnosticada com autismo nível de suporte 1 aos 33 anos. “Eu tive uma infância muito complicada, com dificuldade para aprender a ler, e sofri bullying. As pessoas me tinham como excêntrica e chata. Decidi investigar ano passado por sugestão da minha comadre, que me alertou sobre comportamentos parecidos com os da filha dela. Receber o diagnóstico foi muito importante porque eu passei a me conhecer melhor e entender que eu não era apenas uma pessoa chata, lerda, que não pensava nas coisas, como os outros costumavam falar. Vi que não era culpa minha, e sim da condição que eu tenho”, desabafa.
Nayara conta que com o tempo aprendeu a fazer o que as pessoas queriam que ela fizesse. Segundo a psiquiatra, esse processo é conhecido como camuflagem social. “Essa camuflagem faz com que muitas mulheres consigam cumprir papéis sociais aparentemente bem-sucedidos enquanto internamente lidam com uma sensação persistente de inadequação, exaustão social, hipersensibilidade sensorial e uma dificuldade profunda de compreender por que determinadas situações parecem tão desgastantes”, explica.
Para a geneticista Patrícia Correia, a prevalência maior em homens está provavelmente relacionada tanto a genes presentes no cromossomo X como a possíveis fatores protetores no sexo feminino. Mas concorda que há estudos recentes mostrando que a diferença é bem menor do que o anteriormente considerado, por diferenças na apresentação da clínica que levariam a mais dificuldade no diagnóstico em meninas.
O que dizem os estudos científicos – por Thaíssa Pandolfi*
Resumo técnico, com base em estudos científicos, escrito pela psiquiatra e pesquisadora Thaíssa Pandolfi.
Herdabilidade e genética
A herdabilidade do autismo, em meta-análises robustas de estudos de gêmeos, situa-se entre 64% e 91% (Tick et al., Journal of Child Psychology and Psychiatry, 2016). Estudos populacionais de larga escala, como os conduzidos por Sandin e colaboradores na Suécia (JAMA, 2014; JAMA, 2017), confirmam que a contribuição genética é o componente dominante, com herdabilidade estimada em torno de 80%. Isso significa que o autismo não é “criado” pelo estilo de vida moderno: ele se expressa em terrenos genéticos predispostos, sob influência de fatores que atuam principalmente na vida intrauterina.
Fatores ambientais com evidência
Entre os fatores ambientais com evidência consistente, e aqui é importante separar o que é ciência do que é especulação midiática, temos: idade parental avançada, especialmente paterna (Reichenberg et al., Archives of General Psychiatry, 2006; Sandin et al., Molecular Psychiatry, 2016); exposição pré-natal a ácido valproico, antiepiléptico de uso materno (Christensen et al., JAMA, 2013); infecções maternas graves com forte ativação imune durante a gestação, fenômeno conhecido como Maternal Immune Activation (Atladóttir et al., Journal of Autism and Developmental Disorders, 2010; Estes & McAllister, Science, 2016); prematuridade extrema, baixo peso ao nascer e hipóxia perinatal; deficiência materna de folato no período periconcepcional (Surén et al., JAMA, 2013); e exposição pré-natal a poluição do ar, particularmente material particulado fino (Volk et al., JAMA Psychiatry, 2013).
Agrotóxicos: o que a ciência diz
No campo dos agrotóxicos, há sim evidência relevante. O CHARGE Study, da Universidade da Califórnia em Davis (Shelton et al., Environmental Health Perspectives, 2014), mostrou que crianças cujas mães viveram, na gestação, em até 1,5 km de áreas com aplicação de pesticidas organofosforados ou piretroides tiveram risco aumentado de transtornos do neurodesenvolvimento, incluindo autismo. Estudos posteriores reforçaram esse achado. Portanto, falar de agrotóxicos no contexto pré-natal é cientificamente legítimo, mas é fundamental especificar: o risco documentado refere-se à exposição materna gestacional a determinadas classes de pesticidas em áreas agrícolas, não ao consumo alimentar genérico de produtos com resíduos.
O que não causa autismo
Sobre ultraprocessados e sedentarismo, é preciso ser honesta: não existe, até hoje, evidência científica robusta de que esses fatores causem autismo. O que existe, e isso é importante, são estudos consistentes mostrando que pessoas autistas frequentemente apresentam disbiose intestinal, alterações do eixo intestino-cérebro e maior sensibilidade a aditivos alimentares (Kang et al., Microbiome, 2017; Vuong & Hsiao, Biological Psychiatry, 2017). Ou seja: ultraprocessados e sedentarismo não causam autismo, mas modulam profundamente a saúde, a regulação sensorial, o sistema imune e as comorbidades de quem já é autista. Essa distinção é técnica e ética: confundi-la abre caminho para narrativas que culpam as famílias e para falsas promessas de “cura por dieta”.
Por que os diagnósticos aumentaram
Há ainda um ponto que costuma ficar fora desse debate e que considero central: o aparente aumento da prevalência do autismo nas últimas décadas reflete, em grande parte, ampliação dos critérios diagnósticos, melhor formação clínica, e, sobretudo, o reconhecimento tardio de fenótipos antes invisíveis, especialmente em mulheres adultas, em pessoas com inteligência elevada e em apresentações camufladas (Lai &Baron-Cohen, The Lancet Psychiatry, 2015; Loomes, Hull & Mandy, Journal of the American Academy of Child & Adolescent Psychiatry, 2017; Hull et al., Journal of Autism and Developmental Disorders, 2019). Nas últimas décadas, não é que o autismo “explodiu”: é que finalmente começamos a enxergar quem sempre esteve aqui. Eu mesma fui diagnosticada aos 33 anos como duplamente excepcional, autista e superdotada, e essa é uma realidade epidemiológica silenciada, não uma epidemia ambiental.
*Dra. Thaíssa Pandolfi, psiquiatra e especialista em neurodivergência e superdotação feminina.
Especial Abril Azul: Olhares sobre o autismo
O Abril Azul foi estabelecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) com o objetivo de conscientizar a população sobre o autismo e construir uma sociedade mais consciente, menos preconceituosa e mais inclusiva, a partir do Dia Mundial da Conscientização sobre o Autismo, celebrado em 2 de abril.
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