Imagem: IA Magnific
Estudos indicam que a música pode proporcionar benefícios à saúde, ativando simultaneamente diversas áreas do cérebro ligadas à emoção, memória, atenção e linguagem. A musicoterapia está entre as práticas terapêuticas que podem ajudar na regulação emocional, comunicação e qualidade de vida de pessoas autistas. Na prática, conduzida por um profissional e com objetivos definidos, a música deixa de ser um estímulo passivo e passa a ser uma ferramenta ativa de desenvolvimento.
“A música tem um acesso direto ao cérebro emocional. Ela organiza, regula e cria conexões que muitas vezes não conseguimos acessar apenas pela fala. Por isso, ela se torna uma ferramenta tão potente dentro de processos terapêuticos, especialmente no autismo. A gente trabalha com interação, expressão, construção de vínculo e desenvolvimento. A música vira um meio de comunicação, não apenas um fundo sonoro”, explica o musicoterapeuta Gustavo Gattino, professor associado da Universidade de Aalborg, na Dinamarca.
Pessoas autistas frequentemente enfrentam desafios relacionados à comunicação, e a musicoterapia pode ter um papel importante. Foi assim com Thales, 17 anos, que tinha diagnóstico com nível de suporte 3 e era não verbal quando teve acesso à abordagem terapêutica, aos 3 anos. “Entre inúmeras terapias, a musicoterapia foi fundamental para o Thales porque ele começou a falar através da música, cantando. Foi lindo acompanhar o desenvolvimento dele, principalmente porque até hoje ele ama música. Com a musicoterapia, como pilar para a verbalização, e complementada por outros tratamentos, Thales deixou de ser nível de suporte 3 e agora é suporte 2”, conta a mãe Fátima de Oliveira. (Leia: Autismo: Os sinais que vêm antes do diagnóstico)
Segundo o especialista, no contexto do autismo, a música assume um papel que vai além do entretenimento. “O ritmo organiza o cérebro, traz previsibilidade, segurança e ajuda a reduzir a ansiedade. Quando bem utilizada, a música ajuda a organizar o que está desorganizado por dentro. Ela cria caminhos, facilita conexões e promove desenvolvimento real”, conclui.
Como usar a música no cotidiano
Além do ambiente clínico, a música também pode ser utilizada no dia a dia como ferramenta de apoio, especialmente por pais e cuidadores. Gattino diz que a música pode ajudar na organização da rotina, nos momentos de transição, no relaxamento e na comunicação. E recomenda:
– usar músicas para sinalizar atividades (como hora de dormir ou de se alimentar)
– criar rotinas com sons previsíveis
– utilizar o ritmo para acalmar em momentos de agitação
– estimular interação por meio de canções simples
Um campo em expansão
A musicoterapia é considerada Prática Integrativa e Complementar em Saúde (PICS) pelo Sistema Único de Saúde (SUS), e em 2024 foi regulamentada oficialmente no Brasil. Segundo o musicoterapeuta, ainda é pouco explorada no país, mas ele acredita que isso tende a mudar com o aumento da demanda por abordagens que integrem ciência, emoção e prática. “Existe uma busca crescente por caminhos que realmente funcionem na vida das pessoas. A musicoterapia ocupa esse espaço e ainda tem muito potencial de crescimento”, afirma.
Especial Abril Azul: Olhares sobre o autismo
O Abril Azul foi estabelecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) com o objetivo de conscientizar a população sobre o autismo e construir uma sociedade mais consciente, menos preconceituosa e mais inclusiva, a partir do Dia Mundial da Conscientização sobre o Autismo, celebrado em 2 de abril.
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