A obra mistura crônicas, reflexão pessoal e referências literárias.
O autismo nem sempre é identificado na infância e pode gerar um senso de inadequação e sofrimento durante a vida. É o caso do professor e pesquisador Luciano Gonçalves, que transformou sua experiência no livro Crônicas espectrais, notas sobre o TEA (Editora Patuá). A obra narra o processo de descoberta e compreensão do autismo. “Receber o diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA), em nível 1 de suporte, aos 39 anos, mudou toda a minha perspectiva de vida. Passado o susto e, em seguida, o período de luto, comecei a estudar sobre o tema. No início, a minha intenção era o autoconhecimento”, conta.
Gonçalves usou a literatura como ferramenta de elaboração pessoal. Após a publicação do primeiro texto sobre o diagnóstico tardio de TEA, intitulado “Tudo bem! Ele é autista”, percebeu que poderia fomentar o debate sobre neurodivergência.
“No livro destaco momentos, sentimentos, prejuízos e alegrias de um adulto autista. Passei a encarar o transtorno como pauta pública e intelectual. Por conta de minha atuação acadêmica de professor doutor em literatura, estava acostumado aos livros. No entanto, a condição permanente de autista me encorajou a escrever de outra forma, agora, mais inventiva e livre”, explica.
A obra mistura crônicas, reflexão pessoal e referências literárias, amplia o tema para além do relato clínico e aborda experiências universais como identidade, linguagem, memória e pertencimento. A relação com a mãe é uma das vivências compartilhadas no livro. “O exemplo mais emblemático é que eu cresci sem conseguir dizer a palavra mãe. Desde a infância, fui tratado como tímido, calado, genioso, sistemático, nada que fugisse muito daquilo que se considerava ‘normal’. A minha mãe sempre trabalhou fora e, por isso mesmo, não teve a oportunidade de acompanhar o meu desenvolvimento mais de perto. O diagnóstico tirou o peso dessa culpa que eu carreguei por quase 40 anos”, desabafa.
E ainda revela o papel nocivo do álcool durante toda a vida do autor. “Substância de consumo legal, consumo este incentivado culturalmente, o álcool desregula toda a minha constituição e acentua comorbidades como hipertensão, dificulta a cura de infecções oculares e auditivas, sem falar nas dermatites. Definitivamente, preciso observar a regularidade, a quantidade e o lugar onde consumo bebidas alcoólicas”, conta.
Pessoas autistas podem ser apegadas a rotinas (leia Autismo: Os sinais que vêm antes do diagnóstico), o que gera muito sofrimento para quem não tem o diagnóstico e precisa lidar com as demandas sem as terapias indicadas. Gonçalves conta que não entendia o porquê de tanto estresse e, não raramente, ódio, diante de um acordo não cumprido, uma promessa em vão, uma consulta cancelada, uma mudança de carga horária ou mesmo uma abordagem ríspida. “A ruminação corrói a tranquilidade e, no meu caso, sempre traz alguma dor física, noites insones e taquicardia”, relata.
Para o autor, o diagnóstico trouxe organização emocional e autoconhecimento, além de fortalecer sua atuação pública em defesa dos direitos de pessoas autistas. Segundo ele, compreender o funcionamento da própria mente permitiu lidar melhor com questões como ansiedade, rigidez cognitiva e sobrecarga sensorial — e transformou a experiência individual em instrumento de conscientização coletiva. “O diagnóstico foi um presente. Se mudou algo, foi para melhor”, resume.
Livro: Crônicas espectrais, notas sobre o TEA
Editora Patuá
Autor: Luciano Gonçalves
100 páginas
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Especial Abril Azul: Olhares sobre o autismo
O Abril Azul foi estabelecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) com o objetivo de conscientizar a população sobre o autismo e construir uma sociedade mais consciente, menos preconceituosa e mais inclusiva, a partir do Dia Mundial da Conscientização sobre o Autismo, celebrado em 2 de abril.
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