Crianças na internet: como educar na era digital? Imagem: Freepik
Até pouco tempo a internet parecia uma terra sem lei, mas agora isso está mudando. Enquanto nos Estados Unidos as empresas Meta (Facebook e Instagram) e YouTube (do Google) enfrentam um julgamento histórico sob a acusação de criarem plataformas viciantes e prejudicarem a saúde mental dos jovens, no Brasil essas e outras gigantes da tecnologia precisam se adequar ao Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (15.211/2025), aprovado em setembro de 2025. A nova lei, conhecida como ECA Digital, entra em vigor no dia 18 de março com obrigações claras para aplicativos, jogos eletrônicos, redes sociais e serviços digitais, como a verificação de idade confiável, ferramentas de supervisão familiar, resposta ágil a conteúdos ilícitos e regras específicas para o tratamento de dados e publicidade dirigida a menores.
Em janeiro o Roblox, plataforma de jogos online popular entre o público jovem, anunciou restrições no chat para usuários com menos de 13 anos. A medida gerou uma onda de protestos dentro da própria plataforma e, posteriormente, relatos de crianças que conseguiram contornar o sistema desenhando barba ou bigode no rosto para liberar o acesso ao chat por voz dentro do jogo. O caso mostra que, além de criar e implementar leis, é necessário conscientizar crianças e adolescentes sobre o uso da tecnologia e os perigos do ambiente digital.
Para Marco Giroto, fundador da SuperGeeks, escola especializada em competências para o futuro, limitar chats ou aplicar verificações de idade baseadas em dados autodeclarados ajuda, mas não substitui educação e orientação. “Se uma criança consegue alterar a data de nascimento ou enganar sensores básicos, isso mostra que precisamos ensinar não apenas regras, mas como as ferramentas funcionam e como identificar riscos durante o uso. Quanto mais eles entendem como a tecnologia opera, maior é a capacidade de se proteger. Conhecimento técnico se transforma em consciência, e é essa consciência que realmente garante segurança no ambiente digital”, analisa Giroto.
Educar nos tempos atuais tem sido bastante desafiador para alguns responsáveis. Marta* é mãe de dois meninos que jogam Roblox e conta que teve muitos problemas, principalmente com o de 8 anos. “Meu filho joga no celular do pai. Mês passado, aproveitou a distração dele ao colocar a senha no aplicativo do banco, gravou a senha e depois fez uma transferência de R$400,00 para compras no Roblox”, revela a mãe, que já tinha desinstalado o Whatsapp após descobrir que o filho estava passando o número para amigos do jogo.
O psicólogo parental Filipe Colombini lembra que as plataformas têm dever ético e jurídico, mas os responsáveis precisam acompanhar ativamente. “Não é vigiar como polícia, mas estar presente como referência e isso está relacionado com parceria, afetividade, limites e rotinas. Fazer a instalação de aplicativos de monitoramento e restrição, deixando claro para os filhos a diferença entre monitoria positiva e invasão de privacidade”, orienta.
Foi o que Marta* fez. “Precisei estabelecer horário para os dois e coloquei o computador na sala, assim eu tenho mais acesso ao que o de 12 anos faz enquanto joga. No começo não foi fácil, eles não queriam obedecer, mas fiz um quadro de rotina e coloquei recompensa. Agora já estão mais tranquilos”, conta.
A internet também pode contribuir para o desenvolvimento de habilidades técnicas e comportamentais. O psicólogo explica que a socialização online pode ser positiva, principalmente para os adolescentes, que estão em busca de pertencimento, inclusão e referências sociais. “Antes era na rua, na quadra, no clube… Agora se tem mais uma opção que são os jogos online. Uma opção de fácil acesso a partir da democratização da internet. Jogos como o Roblox permitem cooperação, negociação de regras, resolução de conflitos, criatividade, tomada de decisões coletivas e troca de ideias. Muitas crianças constroem mundos, programam, aprendem lógica sem perceber, lidam com engenharia, matemática e história. Para adolescentes tímidos ou que sofrem exclusão social presencial, o ambiente online pode funcionar como espaço de ensaio social, inclusão, aceitação e pertencimento a depender de cada situação”, afirma.
O ideal é o equilíbrio. Segundo o especialista, o desenvolvimento saudável depende de variedade de contextos, situações e interações. “Se a socialização ocorre só no digital, há empobrecimento de repertório. O corpo, a leitura facial, a frustração ao vivo, o silêncio constrangedor… tudo isso também ensina e muito. A internet pode ampliar o mundo, mas não pode substituí-lo, visto que a interação social não se resume apenas no falar via chat ou microfone. Há uma série de comportamentos sociais que são desenvolvidos ao vivo”, alerta Filipe Colombini.
A jornalista Cibele Gallinucci conta que supervisiona os canais que o filho Gabriel, de 11 anos, segue no YouTube, e fica atenta aos jogadores que ele adiciona no Roblox. “Gabriel prefere jogar do que conversar com estranhos, mas já aconteceu de uma pessoa ofendê-lo e conversei com ele. Falei para não ficar triste e que jamais deve xingar alguém. No começo pensei que eu teria muitos problemas por ele ser autista de suporte 01 e ter TDAH. Achei que ele não fosse entender como funciona o mundo da internet, mas foi totalmente ao contrário. Ele compreende o que pode ou não fazer, e que se fizer coisas que possam prejudicar ele ou outra pessoa terá consequências. Fico feliz pelo entendimento dele, mas mesmo assim reforço sempre os combinados sobre o uso da internet”, afirma.
Sinais de alerta
O psicólogo ressalta a importância dos responsáveis observarem seus filhos para então perceberem mudanças comportamentais, e destaca alguns sinais de alerta como: isolamento progressivo de atividades presenciais, queda no rendimento escolar sem outra explicação, mudança brusca de humor após uso do celular, segredo excessivo em relação a contatos online, alteração importante no sono, cansaço constante e celular ou tablet “grudado” no corpo para onde vai. E chama atenção para quando há medo intenso de perder acesso aos dispositivos, o que pode indicar dependência comportamental e o padrão compulsivo de uso.
Atenção na madrugada!
Em entrevista à BBC News Brasil, a delegada Lisandrea Salvariego, do Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad), da Polícia Civil de São Paulo, disse que se pai e mãe, antes de dormir, recolhessem o celular de seus filhos, muitos crimes não aconteceriam. O psicólogo parental Filipe Colombini esclarece que a madrugada cria uma falsa sensação de anonimato e intimidade que pode facilitar o aliciamento. E o uso noturno do celular aumenta a exposição a conteúdos extremos, pornografia precoce e cyberbullying fora do radar dos adultos.
Além de ficarem mais vulneráveis aos crimes cibernéticos, esse hábito afeta a saúde da criança e do adolescente, que precisa da higiene do sono. “É importante ensinar a dormir e ser referência para isso. Além do risco de exposição a desafios violentos e crimes digitais, há efeitos biológicos também: privação de sono prejudica memória, regulação emocional, atenção e aprendizado, visto que o cérebro adolescente ainda está em desenvolvimento. Dormir pouco altera circuitos ligados à impulsividade e humor”, alerta.
6 dicas para conscientizar crianças e adolescentes sobre segurança na internet
Segundo o especialista, orientações práticas para responsáveis precisam sair do discurso proibitivo e entrar no campo educativo. Confira as dicas.
1 – Conversar cedo. Educação digital começa antes do problema.
2 – Jogar junto. Criar conta, explorar o Roblox com a criança. Entender como funciona e se envolver no que está engajando as crianças.
3 – Combinar regras claras sobre horários e locais de uso. Celular não precisa dormir no quarto. Isso é higiene do sono!
4 – Ensinar pensamento crítico. Nem todo desafio é inofensivo. Nem todo “amigo” é criança. Importante discriminar as situações.
5 – Manter vínculo forte offline. Criança que conversa com os pais tem mais chance de pedir ajuda quando algo estranho acontece.
6 – Oferecer diversos estímulos à criança. Ter opções de diversão além das telas, na natureza, em espaços de interação, clubes, etc.
“O objetivo não é criar medo da internet, e sim desenvolver competência digital. Essas habilidades são tão importantes, atualmente, quanto às habilidades sociais e emocionais. Precisamos inseri-las como pauta para o treinamento de habilidades parentais”, finaliza o psicólogo Filipe Colombini.
*Nome fictício para proteger a criança.
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