Aula de zumba. Imagem: Freepik
A expectativa de vida da população brasileira chegou a 76,6 anos em 2024, a maior média já registrada desde 1940 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para alcançar e até superar essa idade com autonomia, alguns hábitos podem ser adotados. Dr. Kleber Duarte, neurocirurgião com experiência na área de neurocirurgia funcional e dor, recomenda a dança como uma poderosa ferramenta de saúde física, emocional e social. “Conforme a idade avança é fundamental manter o corpo ativo e a mente estimulada para preservar a autonomia, o bem-estar e a qualidade de vida. A dança reúne tudo isso de forma leve, prazerosa e profundamente humana”, afirma.
Dona Lurdes Oliveira, 87 anos, percebe a diferença no seu corpo desde que começou a dançar, há 8 anos. “Me sinto mais ágil e não tenho tanta dor como antes. Tenho mais facilidade para subir escadas, fazer compras e passear com o cachorro. Não sinto mais insônia, estou mais calma e minha memória melhorou”, comemora.
Dr. Kleber explica que a dança estimula a neuroplasticidade (capacidade do cérebro de criar novas conexões) e a liberação de neurotransmissores, como dopamina, serotonina e endorfinas, substâncias que melhoram o humor, reduzem a ansiedade e fortalecem a sensação de bem-estar. “Em idosos, isso é especialmente importante para manter a agilidade cognitiva, reduzir o declínio da memória, proteger contra doenças neurodegenerativas e melhorar a velocidade de processamento mental. E a combinação de música e movimento é uma das formas mais eficientes de ativar essas redes neurais”, esclarece.
A música também ajudou a melhorar a qualidade de vida da Dona Lurdes. “Sempre sonhei aprender a tocar um instrumento musical. Nas aulas de Danças Ciganas Artísticas, a professora Luciana ensina a dançar com pandeiros, castanholas, snujs e chocalhos. Isso faz muito bem para a mente”, comenta. A professora é Luciana do Rocio Mallon, que tem como principal público mulheres maduras.
“Muitos envelhescentes um dia já sonharam com alguma carreira artística, na infância e adolescência. Mas, geralmente, esse sonho foi deixado de lado porque o jovem precisou enfrentar a realidade dura com trabalho formal para pagar as contas. É na envelhescência que os sonhos ficam possíveis, quando a pessoa está se aposentando e procura um novo sentido para a vida”, explica a professora, se referindo às pessoas que estão na transição entre a idade adulta e a velhice.
Outro benefício da dança é ajudar a quebrar a sensação de isolamento, tão comum nessa fase da vida. O especialista diz que o importante é se movimentar e vale dançar em casa, mas participar de aulas ou grupos cria uma sensação profunda de pertencimento, facilita a socialização e novas amizades, trabalha parceria, contato, confiança, cooperação e cria uma experiência coletiva que potencializa o bem-estar. Segundo o médico, o ritmo compartilhado faz com que todos se sintam parte de algo maior, como se a música criasse um laço invisível entre as pessoas. É essa a experiência de Dona Lurdes. Ela participa de duas turmas de dança que possibilitam uma vida social com ida a saraus em eventos culturais, reencontros e a socialização frequente nas aulas. “Assim não fico sozinha em casa, pensando besteira, e faço amizades nas aulas de dança”, completa.
Já Maria Aparecida Francisco, 75 anos, diz que se sente com 30 anos quando está com o grupo de 30 alunas. “Faço aula de zumba duas vezes por semana. Passei a dormir melhor, não tenho mais ansiedade e tenho menos estresse. As aulas de dança me ajudaram a fazer novas amizades e ter mais vida social. Nós nos divertimos muito”, ressalta.
A professora Luciana do Rocio chama atenção para preconceitos e valores sociais que dificultam a procura pela atividade: o etarismo (ou idadismo), preconceito baseado na idade, e o machismo, sistema de crenças e comportamentos que coloca o homem em posição de superioridade e historicamente limita e desvaloriza as mulheres. E ainda o moralismo presente em muitas famílias, nas quais a dança era associada à promiscuidade. “Já ouvi muitos desabafos, principalmente de como eram tratadas na família, tendo até que mentir para evitar julgamento. Teve o caso de uma senhora que dizia à neta que ia costurar e fazer tricô com as amigas, até que um dia a neta a seguiu, abriu a porta e se encantou com a atividade”, relata.
Dança na rotina
Quem supera todas essas barreiras conquista benefícios físicos e mentais. Dr. Kleber Duarte recomenda a prática de dança por 1 hora entre 2 e 3 vezes por semana, podendo iniciar 1 ou 2 vezes e aumentar gradualmente. “O importante é respeitar seus limites e buscar um ritmo que seja agradável, de sua preferência, porque a dança deve ser sinônimo de alegria, não de obrigação. A dança é uma intervenção poderosa, barata e acessível para a saúde na terceira idade. Ela melhora equilíbrio, memória, humor, atenção e ainda fortalece conexões sociais sendo um verdadeiro exercício para o corpo e para o cérebro”, finaliza o médico, coordenador do Serviço de Neurocirurgia para Saúde Suplementar e Neurocirurgia em Dor do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.
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